ENCICLOPÉDIA · TÉCNICAS

Estilização

Ler a árvore antes de decidir o que ela vai ser

ESCOLHER O ESTILO É A ÚLTIMA COISA, NÃO A PRIMEIRA

A tentação de quem começa é abrir a lista de estilos, escolher o mais bonito e tentar levar a árvore até ele. É o caminho que produz árvore torturada e resultado que não convence ninguém, inclusive quem fez.

A ordem que funciona é a inversa: você lê o que a árvore já tem, e o estilo é o nome do que ela pede. Um tronco que já sai inclinado do vaso está dizendo shakan antes de você decidir nada. Uma base com dois troncos saindo juntos é sokan, e insistir em transformá-la num tronco único é jogar fora o que ela tem de melhor.

Os nomes japoneses não são categorias a preencher: são vocabulário para descrever o que já se vê.

OS TRÊS LUGARES ONDE SE LÊ UMA ÁRVORE

NEBARI, que é a base e as raízes que ancoram o tronco na superfície. É por onde se começa, porque é a parte mais difícil de mudar depois. Uma base que espalha em todas as direções dá sensação de árvore velha e firme; uma base que sai só para um lado limita muito o que vem acima.

TRONCO, que é a linha e o movimento. Ele decide quase todo o grupo de estilos: reto e cônico é chokkan, com curvas suaves é moyogi, deitado para fora do vaso é kengai. E o afilamento importa tanto quanto a curva: tronco que engrossa embaixo e afina em cima parece árvore; tronco de espessura igual parece galho enfiado na terra.

RAMIFICAÇÃO, que é onde os galhos saem e para onde vão. É a parte mais trabalhável, e é a que mais depende de poda e de tempo.

Uma silhueta de árvore com três marcações numeradas: a base onde as raízes se juntam ao tronco, a linha do tronco, e o ponto em que nasce o primeiro galho (esquema)
Uma silhueta de árvore com três marcações numeradas: a base onde as raízes se juntam ao tronco, a linha do tronco, e o ponto em que nasce o primeiro galho (esquema)

A ORDEM DA PRIMEIRA ESTILIZAÇÃO3

Uma primeira estilização não é um dia de trabalho fino. É a definição da estrutura, e ela tem uma ordem que não se inverte sem custo.

Limpa-se a base, tirando os brotinhos baixos que não vão a lugar nenhum. Arama-se o tronco e os galhos principais, com arame grosso o bastante para segurar o que se quer. Dobra-se o tronco primeiro, porque ele é a decisão que manda em todas as outras. Só então vêm os galhos principais, e só depois deles os secundários.

Importante: E aqui está o passo que quase todo mundo antecipa: os galhos TERCIÁRIOS não se podam nessa hora. A orientação final dos secundários ainda não está fixa, e podar terciário antes disso é decidir sobre uma posição que ainda vai mudar.

Pelo mesmo motivo, as pontas em crescimento ficam INTEIRAS. Elas serão encurtadas no futuro, e por enquanto são elas que geram a energia que paga a recuperação da árvore depois de uma transformação dessas. Cortar a ponta de tudo no dia da estilização é tirar o combustível da recuperação.

Na primeira estilização se faz muito pouco trabalho fino, e isso não é preguiça: é sequência. Com os galhos principais definidos, o refinamento continua depois, e boa parte do vazio se fecha sozinha com broto que nem vai precisar de arame.

Atenção: Se a base de um galho rachar ou lascar na hora de dobrar, a ferida se trata na hora, com selante. Ferida de dobra que fica aberta em galho recém-torcido é o começo de um galho morto.

MOVIMENTO NOS DOIS PLANOS, E O RABO DE PORCO3

O erro mais comum de quem arama pela primeira vez não é dobrar de menos: é dobrar num plano só. O galho sobe e desce, e visto de cima continua reto.

Movimento se faz nos dois planos ao mesmo tempo: para a esquerda e para a direita, e também para baixo e para cima. É o que faz o galho parecer galho em vez de arame vestido de galho, e é o que compacta o comprimento até caber num volume de folhagem que se sustenta.

Importante: E o movimento do tronco baixo tem de CONVERSAR com o resto da árvore. O defeito típico da árvore feita por mão humana é o movimento uniforme, sempre igual, e a incoerência mais comum é o tronco contar uma história de ambiente severo enquanto os galhos e a folhagem contam outra.

O alvo, aliás, não é ter muitos galhos bem aramados: é chegar à imagem que se quer com MENOS galhos do que a árvore tem. E o que sobra se reposiciona para dar profundidade, empurrando uns para trás e trazendo outros para a frente, em vez de deixar tudo no mesmo plano.

Importante: E há um limite do outro lado, com nome próprio: o RABO DE PORCO. Curva demais, apertada e repetida, vira espiral, e espiral não existe em árvore nenhuma. A curva boa é a que deixa o broto se abrir naturalmente por FORA da dobra, ou por cima do galho.

Daí sai um critério de poda que é de posição e não de vigor: o broto que sai por DENTRO da curva se tira, e o que cresce para baixo também. Os dois brigam com a leitura da forma que você acabou de dar ao galho.

Atenção: Com uma exceção que evita o estrago: se o galho estiver muito pelado, guardam-se os brotos melhor colocados, mesmo os de dentro da curva. Galho sem folha não se recupera por obediência à regra.

NA CADUCIFÓLIA A LÓGICA É OUTRA3

Em conífera, o arame define quase tudo, e o galho aceita ser posto onde você quiser. Em caducifólia, a tesoura decide mais que o arame, e a estrutura se constrói por divisão em vez de por dobra.

Começa-se pelo ápice: reduz-se o alto da árvore para tirar o trecho reto e, mais importante, para criar CONICIDADE na parte de cima. Corta-se de volta até um nó que tenha galhos fortes e bem postos, com serra, para o corte sair limpo e no lugar certo.

Depois se escolhe a frente. E há um detalhe fino: quando o nebari cresce parelho em toda a volta, ele é NEUTRO nessa decisão, e a frente passa a ser escolhida pela melhor relação entre o tronco e o galho principal. Nebari só manda na escolha da frente quando ele é desigual.

A frente é o melhor lugar de onde olhar a árvore, e ela fica, em geral, PARALELA à frente do vaso. Vaso e árvore olham para o mesmo lado.

Importante: E então a regra que estrutura a caducifólia inteira: de cada nó ficam DOIS galhos. Tira-se o crescimento fraco e o que aponta para a direção errada até sobrarem dois, e a poda volta sempre até um ponto logo acima de um galho forte ou de uma gema no nó.

A folha se tira DEPOIS da poda, não antes: com a folha no lugar você enxerga o vigor de cada trecho, e sem ela você enxerga a estrutura. As duas leituras servem, e em ordem trocada uma atrapalha a outra.

Atenção: E o campo brasileiro filmado faz na ordem inversa: a página da Desfolha registra que metade dos vídeos de estilização COMEÇA desfolhando, justamente para enxergar a estrutura antes de escolher galho. A divergência é de objetivo, não de técnica: quem tira a folha primeiro abriu mão de ler o vigor.

E o momento dessa operação vem descrito de um jeito que não é um mês: é a IMINÊNCIA DA QUEDA DAS FOLHAS, e a janela vai de quando as folhas começam a cair até cerca de duas semanas depois. O motivo é bom e vale entender: nessa altura a maior parte do amido guardado já voltou para dentro da árvore, e a folha que se tira já entregou o que tinha para entregar.

Importante: E aqui esta página precisa desdizer a si mesma, porque o que vinha escrito depois estava errado. Ela dizia que mês de livro estrangeiro não se copia mas ESTADO DE PLANTA sim, porque acontece em qualquer lugar do mundo. O estado TAMBÉM não atravessa. A queda da folha é sinal legível onde ela é causada pelo FRIO que chega: ali ela anuncia o repouso, e o amido já desceu. No cerrado a folha cai por SECA, e a seca não anuncia a mesma coisa.

Importante: E há o caso em que seguir o sinal de fora faz estrago, não só imprecisão: nos ipês e em outras nativas a árvore perde TODA a folha e ENTÃO floresce. Nelas, "quando as folhas começam a cair" é a antevéspera da florada. Podar ali é cortar exatamente os ramos que iam abrir, e o erro só aparece na estação seguinte, quando não há mais o que desfazer.

Nota: O sinal daqui existe e são as fichas das espécies que o dão: nas que florescem sem folha, a poda de seleção é DEPOIS da floração. Não é o mesmo sinal com outro nome. É outro sinal, porque separa duas coisas que no hemisfério norte acontecem juntas e aqui não: lá a folha cai e a árvore dorme; aqui a folha cai e a árvore floresce.

Importante: E há um segundo motivo, que é o mais interessante e que muda o que se corta: o amido volta para a árvore para ser REDISTRIBUÍDO às gemas do ano que vem. Cortar a gema TERMINAL nessa janela é cortá-la ANTES de ela receber a parte dela. Quem poda depois disso já pagou a conta e cortou fora o que pagou.

Atenção: E para a caducifólia daqui que NÃO floresce sem folha, o sinal continua sem descrição. A fonte estrangeira dá o momento e não ensina a reconhecê-lo além do nome, e quem cultiva no Planalto Central é que sabe como a folha avisa que vai cair na seca. Isso ainda não está escrito, e não se inventa um.

Para dobrar caducifólia, que quebra mais que conífera, o arame vai por trás do galho no ponto exato onde a dobra é desejada, e um SEGUNDO arame entra no meio do vão entre as voltas do primeiro, no mesmo ângulo. Não é para apertar mais: é para aumentar a área que segura e diminuir o risco de estalar. E nenhum dos dois pode machucar nó ou broto novo.

OS NOMES, EM QUATRO FAMÍLIAS

Este app já traz o vocabulário completo, e ele se organiza por aquilo que o nome descreve: a linha do tronco, o que acontece na base, a madeira trabalhada, e a recusa da forma.

Uma árvore pode ter mais de um nome ao mesmo tempo, e quase sempre tem: um sokan pode ser sharimiki, um yose-ue é feito de vários moyogi.

Cada nome abaixo tem verbete próprio, com o que define a forma e quais espécies a aceitam.

PELO TRONCO Chokkan vertical formal · Moyogi vertical informal · Shakan inclinado · Bunjin literato · Hokidachi vassoura

PELA BASE Sokan tronco duplo · Sankan tronco triplo · Kabudachi touceira · Yose-ue floresta · Ikadabuki jangada · Neagari raiz exposta · Ishitsuki plantado na rocha · Sekijoju raiz sobre rocha · Korabuki casco de tartaruga

FEITAS PELO AMBIENTE Fukinagashi varrido pelo vento · Kengai cascata · Han-kengai semicascata · Ne-tsuranari raízes conectadas · Bankan tronco retorcido

NÃO É FORMA, É MARCA NA MADEIRA Sabamiki tronco fendido · Sharimiki madeira morta no tronco

SHIZEN Shizen naturalista

É A TÉCNICA MAIS LENTA DE TODAS1,2

Aramação leva meses, poda leva temporadas, e estilização leva anos. O arame fica de oito a doze meses na árvore, e a operação se repete todo ano até chegar à forma, e isso é para UM movimento de UM galho. Oito a doze é a referência comum; a página da Aramação explica por que o número vai de um mês a três anos, e o que decide é a velocidade com que a árvore engrossa.

Isso muda o que é um erro. Regar errado se corrige na semana seguinte; podar o galho errado tira anos. Por isso, na estilização, a ordem certa é decidir devagar e cortar pouco.

A vantagem de espécie de crescimento rápido, como a caliandra e o cambuí, é exatamente essa: o erro e o acerto aparecem na mesma temporada, e quem está aprendendo aprende mais rápido.

FONTES

  1. 1.Yukio Hirose, The Ultimate Bonsai Handbook: The Complete Guide for Beginners, 2020
  2. 2.Amboru Kato Kimura e Mikkel Aaland, The Ancient Art of Bonsai, 2007
  3. 3.Peter Warren, Bonsai, 2014

Quando duas fontes se contradizem, a divergência fica registrada: fingir consenso faria mais estrago que qualquer um dos dois lados.