ENCICLOPÉDIA
Substrato
Não é sobre qual terra comprar. É sobre o que a mistura precisa fazer pela raiz, e sobre como escolher, com dois critérios, o material que existe perto de você.
Importante: O QUE ESTA PÁGINA DESFAZ1
Até hoje estava escrito aqui que não haveria página de substrato, e o motivo dado era este: que a literatura de bonsai só oferece receita com material importado, akadama com areia de rio, e que ensinar aquilo aqui seria ensinar a comprar terra japonesa.
Aquilo era falso, e quem escreveu foi esta casa. Um dos livros que a enciclopédia já citava tem um capítulo inteiro sobre mistura de substrato, com princípio, com critério e com proporção, e NÃO menciona akadama uma única vez.
E o motivo de não termos achado interessa mais que o erro: a busca foi feita pelas palavras "substrato", "akadama" e "kanuma". O capítulo se chama "soil mix". A busca respondeu vazio pelo motivo errado, e a resposta vazia virou uma decisão de não escrever.
Ficamos devendo esta página e a explicação. Aqui estão as duas.
SUBSTRATO NÃO É RECEITA, É CONSEQUÊNCIA1,3
Quase toda discussão sobre substrato começa errada, pela marca do material. Ela devia começar pela raiz, e o que a raiz precisa é simples de dizer e difícil de conseguir num vaso raso: água E ar, ao mesmo tempo, o tempo todo.
Importante: A frase que resume o assunto inteiro está num livro de 1973 e não envelheceu: o oxigênio é muito necessário para as raízes. A mistura tem de drenar bem, tem de segurar umidade sem ficar encharcada, e NÃO pode ser compactada a ponto de o ar não passar livremente. E, do outro lado, também não pode deixar bolsões de ar.
Isso é a mesma coisa que a página de fisiologia diz por outro caminho: o fungo que trabalha com a raiz é aeróbio e precisa de oxigênio para viver. Substrato encharcado não mata por excesso de água, mata porque a água ocupa o lugar do ar.
Guarde essa inversão e o resto desta página vira consequência: NÃO se trata tanto de tirar a água quanto de deixar o ar entrar.
A PARTE MINERAL, E O CRITÉRIO QUE SERVE EM QUALQUER LUGAR1
A parte mineral é a que abre espaço para o ar e deixa a água passar. Nas fontes ela aparece como "areia", e a palavra é mais larga do que parece: entra areia de rio lavada, areia de obra, granito decomposto, e vários materiais comerciais absorventes.
Nota: E aqui está o achado que faz esta página existir: a fonte NÃO manda comprar um produto, ela dá dois critérios que qualquer pessoa pode aplicar ao que existe perto de casa. O material precisa ter pH NEUTRO e absorver em torno de 20% de umidade.
O porquê do segundo critério é o que ensina: material que absorve umidade DEMAIS encharca a mistura, e mistura encharcada dá problema de raiz. Não é sobre o nome do produto, é sobre quanta água ele segura.
Há também o que NÃO serve, e são exclusões com motivo: areia de praia e areia de aquário estão fora; e qualquer areia se confere antes contra SAL e álcali forte. Onde a areia foi colhida, olhe a vegetação em volta, que denuncia herbicida.
A PARTE ORGÂNICA, E O QUE ESSA PALAVRA QUER DIZER DE VERDADE1
A palavra que as fontes usam é "mulch", e ela não quer dizer aqui o que a jardinagem brasileira vende com esse nome. A própria fonte define: o melhor é o folhiço curtido de carvalho, ou seja, MATÉRIA ORGÂNICA JÁ DECOMPOSTA.
Servem também composto caseiro, turfa, mistura de plantio comercial e esfagno picado. É a fração que segura umidade e nutriente, e é ela que se reduz quando se quer uma mistura mais seca.
Composto feito em casa se esteriliza antes, com água fervente, para matar inseto e fungo. E se peneira, tirando o que ficou graúdo.
Importante: Aqui está o ponto em que a tradução tem de ser honesta: o material da fonte é o folhiço de carvalho dos Estados Unidos dos anos 1970. O EQUIVALENTE brasileiro, o que se compra aqui com essa função e esse comportamento, não está identificado. O que atravessa é a função, não o produto.
A GRANULOMETRIA DECIDE A VELOCIDADE1
O mesmo material, peneirado em tamanhos diferentes, produz árvores diferentes. E a escolha é por objetivo, não por gosto.
Mistura GROSSA, com mais areia graúda, drena mais e faz crescer mais rápido. É o que se usa em árvore ainda em formação e em árvore fraca, que precisa se recuperar. Mistura mais FINA segura mais água e freia o crescimento, e é o que se usa na árvore que já está pronta e que se quer manter.
Importante: E há uma coisa que quase todo mundo joga fora e que tem uso: o PÓ que sobra depois de peneirar não entra na mistura, porque entope o espaço do ar. Mas ele serve para cobrir a superfície depois do transplante.
As proporções abaixo são o critério por tipo de árvore, sobre uma base de partes iguais.
A fonte traz um quadro com números por ESPÉCIE, e ele é uma lista alfabética de espécies do hemisfério norte. O critério usado aqui é o de TIPO de árvore, que atravessa, e não transporta a tabela, que não atravessa.
| QUANDO | PARTE ORGÂNICA E TERRA | PARTE MINERAL |
|---|---|---|
| Caducifólia e perene de folha larga | mais terra e mais orgânico | com areia junto |
| Conífera | menos terra e menos orgânico | mais areia |
| Árvore fraca, ou que se quer engrossar | mistura mais GROSSA | mais areia grossa, para drenar mais |
| Árvore pronta, que não se quer crescendo | mistura mais FINA | menos areia grossa |
DE ONDE VEM A TERRA, E DE ONDE NÃO VEM1
Terra de superfície vendida por viveiro serve. Terra de jardim serve, desde que a vegetação daquele lugar esteja saudável, o que é o teste mais barato que existe: planta boa em cima, terra boa embaixo.
Importante: O que não serve: terra velha catada de outro vaso. Ela já foi usada, não tem mais valor nutritivo, e não vai alimentar a árvore que a receber.
E a terra do lugar de onde a árvore foi coletada nem sempre serve, o que é contraintuitivo: as condições mudam depois do transplante, e o que sustentava aquela planta no chão não é o que ela precisa num vaso.
A OPÇÃO IMPORTADA, E O LUGAR DELA2
A literatura japonesa trabalha com akadama, uma argila granulada, quase sempre misturada com areia de rio, e com kanuma para as espécies que querem solo ácido, como a azaleia satsuki. Areia de rio e carvão de bambu aparecem para as coníferas.
Isso é uma opção real e é o que se usa no Japão. Não é a única coisa que a literatura de bonsai conhece, e não é o que este verbete recomenda por padrão, por um motivo prático: é material importado, e o preço e a disponibilidade dele mudam tudo para quem cultiva aqui.
FONTES
- 1.John Yoshio Naka, Bonsai Institute of California, Bonsai Techniques I
- 2.Yukio Hirose, The Ultimate Bonsai Handbook: The Complete Guide for Beginners, 2020
- 3.Peter Warren, Bonsai, 2014
Esta página existe porque uma afirmação nossa caiu. Ela dava a literatura como mais pobre do que é, e ficou no ar tempo demais.