ENCICLOPÉDIA

História do Bonsai

De monges chineses que acharam bonita uma árvore torta, ao tronco de amoreira confiscado na alfândega de Santos em 1908. Mil anos, três países, e uma primavera brasileira que fez o caminho de volta para o Japão.

Bonsai numa colina, com o monte Fuji ao fundo
ILUSTRAÇÃO GERADA POR INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL, NÃO É FOTOGRAFIA

COMEÇA COM MONGES CHINESES E UMA ÁRVORE QUE JÁ VINHA TORTA1

A história começa na China, e começa com uma escolha e não com uma técnica. Monges viram, na montanha, árvores que o vento, a pedra e a fome já tinham deixado pequenas e retorcidas, e decidiram que aquilo era bonito. Transplantaram para vasos ornamentais e levaram para dentro.

A prática pode ter mais de mil anos, numa forma simples chamada pun-sai, com um único exemplar por vaso. Aquelas primeiras árvores tinham folhagem rala e tronco rugoso, e muitas vezes lembravam animais: dragões, pássaros, bichos enroscados. Não era acaso. Era o que se procurava.

E é dessa preferência que nasce a diferença entre as duas escolas, que dura até hoje. O bonsai chinês parte da paisagem imaginada, e ali um tronco que sugere um dragão vale mais que um tronco que imita fielmente uma árvore de verdade. O japonês foi para o outro lado: o da beleza natural da árvore, sem alegoria.

A origem chinesa é a versão mais aceita. As datas do período mais antigo são estimativas.

ENTRA NO JAPÃO JUNTO COM O ZEN, E VIRA OUTRA COISA1

A palavra bonsai quer dizer, simplesmente, planta numa bandeja. O nome é modesto e o que aconteceu com a coisa não foi.

A prática entra no Japão no período Kamakura, entre 1185 e 1333, junto com o budismo zen, que naquele momento se espalhava pela Ásia. E uma vez lá, foi refinada a um ponto que a China não tinha alcançado. Saiu dos monastérios, chegou à aristocracia e virou símbolo de prestígio.

Sobrou daquele tempo uma frase que continua incômoda. Um pergaminho japonês diz, em tradução, que apreciar árvores em vaso curiosamente retorcidas é amar a deformidade. E ela interessa pelo que pressupõe: para alguém escrever aquilo, cultivar árvore torta em vaso já tinha de ser hábito estabelecido entre a elite.

Nos séculos XVII e XVIII as artes japonesas chegaram ao auge, e o bonsai junto. O princípio era o mesmo dos jardins de pedra: tirar tudo o que não é essencial até sobrar só o que importa. Foi também quando a prática deixou de ser coisa de elite e alcançou o público, o que multiplicou a procura por árvores coletadas na natureza.

A data de entrada no Japão é discutida. Há quem aponte 1195, por uma referência num pergaminho atribuído àquele período; registros seguros de árvores em vaso aparecem no começo do século XIV, o que indica que a prática já vinha de antes.

O JAPÃO SE ABRE, E O MUNDO DESCOBRE AS ÁRVORES1

O Japão passou mais de duzentos e trinta anos fechado. Quando se abriu, em meados do século XIX, quem visitava o país voltava contando a mesma coisa: havia árvores adultas, inteiras, com tronco velho e copa formada, vivendo dentro de vasos rasos de cerâmica.

Foi nessa fase que os estilos se diversificaram e que apareceram os desdobramentos. O bon-kei acrescentou pedras, plantas de acompanhamento e até construções e figuras humanas à composição. O sai-kei foi além e passou a reproduzir paisagens inteiras em miniatura.

CHEGA AO BRASIL NUM NAVIO, E FICA VINTE ANOS ESPERANDO2

A história brasileira começa em 1908, no Kasato Maru, com a primeira leva de imigrantes japoneses. Entre eles vinha gente que já sabia cultivar bonsai, e vinha também um tronco de amoreira na bagagem do monge budista Tomojiro Ikaragui. Teria sido o primeiro bonsai a entrar no Brasil, se a alfândega não o tivesse confiscado.

E aí o bonsai brasileiro parou por vinte anos. Os imigrantes tinham vindo para a lavoura de café e foi nisso que trabalharam. Só nos anos trinta, com alguma estabilidade financeira, a colônia japonesa voltou a praticar as artes da terra natal.

O centro de tudo foi Guaiçara, no interior de São Paulo, que produziu tanta planta oriental que ganhou o apelido de berço das plantas. De lá saíram, pela Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, as mudas que espalharam pelo país o pinheiro japonês, o junípero, o acer, a azaleia, a piracanta, a glicínia e a cerejeira ornamental. Se você compra qualquer uma dessas num viveiro brasileiro hoje, ela desceu daquele trem. Entre os pioneiros aparecem Seto, Katsuki e Nita, em Guaiçara, além de Hadano em Bragança e Miyoshi.

Nota: E há um detalhe que fecha o círculo para quem cultiva aqui. O primeiro bonsai feito com planta BRASILEIRA, no começo dos anos trinta, foi uma primavera. A mesma Bougainvillea que tem ficha aqui e que floresce em muro de Brasília.

Em 1938, Noriyasu Seto mandou um exemplar de primavera para o Japão. Trinta anos depois de um tronco de amoreira japonesa ser confiscado na alfândega de Santos, uma árvore brasileira fez o caminho de volta.

O episódio do tronco de amoreira é apresentado pela fonte como relato, e aqui fica como relato. O trecho sobre a primavera se apoia numa revista da colônia impressa em setembro de 1938 e no acervo da Sociedade de Estudos da Tradição Oriental.

FONTES

  1. 1.Amboru Kato Kimura e Mikkel Aaland, The Ancient Art of Bonsai, 2007
  2. 2.O Bonsaísta, A história do bonsai no Brasil
  3. 3.Yukio Hirose, The Ultimate Bonsai Handbook: The Complete Guide for Beginners, 2020

Datas de origem do bonsai circulam em muitas versões, e boa parte do que se lê por aí é cópia sem procedência. Esta página se apoia em livro e em fonte que declara de onde tirou o que diz. Onde as fontes divergem, a divergência está anotada ao pé da seção, e não misturada ao texto.