ENCICLOPÉDIA
As proporções
A grossura da base contra a altura. O número quase converge; a régua quase nunca, e a melhor prova disso é um erro de revisão que multiplicou uma regra por três.
UM ERRO DE REVISÃO QUE MULTIPLICOU UMA REGRA POR TRÊS1
A história mais útil sobre proporção em bonsai é a de um erro de impressão, e ela vale como aviso para tudo o que vem depois nesta página.
Um bonsaísta americano, Mike Page, publicou num boletim da federação de bonsai da Califórnia um artigo sobre árvores baixas e muito grossas, que ele apelidou de sumo. Ele definiu a proporção com números: uma circunferência e meia de tronco para uma altura de árvore.
Importante: A revista imprimiu diâmetro onde ele tinha escrito circunferência. Quem contou o caso registrou a reação do próprio autor: aquilo teria feito uma "diferença drástica".
E faz. Circunferência é pouco mais de três vezes o diâmetro. A regra "uma vez e meia" vira, na versão errada, menos de meia vez. Um leitor que aplicasse a versão impressa faria uma árvore mais de três vezes fora da proporção que o autor descreveu, seguindo o texto à risca.
Guarde isso, porque a página inteira é sobre isso: o número quase sempre converge, e a régua quase nunca.
ONDE SE MEDE A BASE, E SÃO TRÊS COISAS DIFERENTES1,2,3,4,8
Toda regra de proporção compara a grossura da base com a altura. Só que "a grossura da base" não é uma grandeza: nas fontes que consultamos, são três, e elas não se convertem umas nas outras sem conta.
Diâmetro acima do nebari. É a única que qualifica ONDE, e por um bom motivo: o nebari alarga a base, e medir na parte alargada dá outro número. Aparece numa fonte americana e na tradução brasileira dela.
Circunferência na base. É a de Mike Page, e é a do erro acima. Fica registrada num post do próprio autor medindo uma azaleia dele: cerca de 28 centímetros de circunferência de tronco para cerca de 13 de altura.
Largura do nebari ao nível do solo. É a de John Romano, o especialista em shohin que levou a ideia do sumo para o tamanho pequeno. E o detalhe que mostra o tamanho do problema: Romano troca de grandeza no meio do mesmo parágrafo, indo da circunferência do tronco de Page para a largura do nebari, e propõe que ela seja cerca de dois terços da altura.
E há as que simplesmente não dizem. O "seis vezes" mais citado do Ocidente não informa onde se mede, e uma das fontes brasileiras fala em "espessura" sem dizer sequer se é diâmetro ou perímetro.
A ALTURA PARECE RESOLVIDA, E TEM UMA DISSIDÊNCIA BRASILEIRA QUE CUSTA CARO3,5,6,7
Aqui existe consenso, e ele atravessa idiomas: mede-se da borda do vaso ao ponto mais alto da árvore. O vaso não entra. Um viveiro japonês escreve exatamente isso, com o mesmo detalhe que aparece na página dos tamanhos: para cascata não se usa altura, e sim vão vertical por vão horizontal, porque a árvore desce.
Importante: Uma fonte brasileira mede de outro jeito, e é uma diferença de verdade: para ela a altura vai do ponto de toque no solo, ou seja, do nebari, até o ápice. A camada de substrato acima da borda do vaso fica de fora.
Num bonsai grande isso é irrelevante. Num shohin não é: dependendo do vaso, essa camada vale de cinco a quinze por cento da altura, o suficiente para uma árvore de vinte e um centímetros virar uma de vinte, e trocar de classe de tamanho na inscrição de uma exposição.
A mesma fonte brasileira acrescenta coisas que as outras não dizem e que valem: jin e madeira morta contam como parte da árvore na hora de medir, numa floresta é a maior árvore que dita a altura do conjunto, e a largura é dada pelos dois extremos.
O NÚMERO, E AS DUAS ESCOLAS BRASILEIRAS QUE NÃO SE CITAM2,4,7,8
Com a régua resolvida, o número. E aqui a divergência é de consequência prática direta.
A regra clássica que circula em inglês e em português é altura entre seis e doze vezes o diâmetro da base, com uma variante mais dura, de seis vezes fixas, que aparece em duas fontes independentes, uma americana e uma brasileira.
Importante: E existe outra, brasileira, apresentada como tendência contemporânea: de duas a três vezes. Ou seja, árvores muito mais baixas e grossas do que a regra antiga manda.
A diferença não é de detalhe. Um tronco de cinco centímetros pede uma árvore de dez a quinze centímetros por uma regra, e de trinta a sessenta pela outra. As duas circulam em português, e nenhuma das duas menciona que a outra existe.
Nenhuma delas vale para bunjin nem para fukinagashi, e as próprias fontes dizem isso: são estilos em que a desproporção É a forma.
Importante: O QUE O ENSINO JAPONÊS DÁ NO LUGAR DA RAZÃO2,5,9
O ensino japonês não trabalha com razão grossura por altura. Ensina outra coisa: a conicidade, isto é, o tronco engrossando embaixo e afinando em direção à copa, dita de forma qualitativa e sem número; o nebari; e a altura em que a ramificação deve começar.
A fonte americana que dá o "seis a doze vezes" atribui o número a "livros antigos de bonsai", sem dizer quais.
Por isso não se diz, em lugar nenhum destas páginas, que a regra da proporção é japonesa. Ela circula no Ocidente, e é útil. Dizer "os japoneses ensinam seis a doze vezes" é dar ao número uma autoridade emprestada.
O PRIMEIRO GALHO: UM QUARTO NO JAPÃO, UM TERÇO NO OCIDENTE4,7,9
Esta é a proporção que as fontes japonesas realmente dão, e ela diverge do que se lê em português.
A edição japonesa de um site estrangeiro diz que o ideal é a ramificação começar a cerca de um quarto da altura, contado de baixo. As fontes ocidentais e brasileiras dizem um terço, e uma delas amplia para entre um terço e a metade.
Um quarto e um terço não são a mesma coisa: numa árvore de quarenta centímetros, dão dez e treze centímetros e meio. A diferença muda qual galho você mantém quando decide a estrutura, e essa decisão não se desfaz.
A fonte do "um quarto" é a edição japonesa de um site ocidental, e não uma fonte japonesa nativa. Ela está aqui porque é a única que dá o número, e a natureza dela fica dita para o leitor pesar.
O VASO É A ÚNICA COISA EM QUE TODO MUNDO CONCORDA4,7,8,9
Depois de tanta divergência, um bloco de convergência: todas as fontes que falam do vaso dizem a mesma coisa. A largura do vaso é cerca de dois terços da altura da árvore, e a profundidade acompanha a grossura do tronco na base.
Há um ajuste que várias delas fazem e que resolve o caso das árvores muito baixas: quando a árvore é mais larga que alta, usa-se dois terços da LARGURA da copa em vez da altura. É o que salva a regra justamente nas árvores baixas e grossas de que fala a primeira seção.
E mesmo aqui a régua escorrega: uma das fontes escreve "dois terços da altura" numa frase e "menos que dois terços" na frase seguinte, na mesma página.
SUMÔ: O QUE SE DIZ EM BRASÍLIA, E O QUE EXISTE PUBLICADO1,10
Entre bonsaístas de Brasília, sumô é o nome das árvores baixas e muito grossas, na faixa de uma medida de base para uma de altura. É vocabulário vivo, dito por quem cultiva, e está aqui registrado como tal.
E vale saber, antes de tratá-lo como termo estabelecido, que em inglês ele tem autor e data: foi cunhada por Mike Page, e a definição dele não é um para um, é uma circunferência e meia para uma altura, que é coisa bem diferente.
O mais próximo do sentido de Brasília que existe publicado vem de uma associação americana, descrevendo shohin em que o diâmetro do tronco se aproxima ou passa da altura total da árvore. É descrição, não definição, e está em diâmetro.
Nota: Nada disso desqualifica o termo. Um nome que um grupo usa e entende É vocabulário, e uma enciclopédia brasileira de bonsai que não registrasse isso estaria escrevendo sobre outro país. O que ela não pode é apresentar como tradição japonesa o que é apelido de um grupo, nem como definição o que é descrição.
O MATERIAL, ANTES DE USAR ESTAS PROPORÇÕES
O sumo chega por relato. O que se conhece do texto de Mike Page no boletim da federação da Califórnia é o relato de quem o leu, com o erro identificado pelo próprio autor. É uma cadeia de três elos, e ela está declarada porque uma cadeia de três elos é o que ela é.
E uma advertência sobre o material brasileiro, que é a parte que mais interessa a quem cultiva aqui. Das cinco fontes brasileiras que encontramos, só três são independentes: duas delas publicam o mesmo texto frase a frase, e uma terceira é tradução declarada de uma fonte americana. Quando você vir a mesma regra repetida em vários sites em português, ela pode estar sendo repetida, e não confirmada.
Importante: E a fonte da divergência mais cara, a que mede a altura a partir do substrato, não tem autoria assinada. É um blog brasileiro com data, sem nome de pessoa. Fica citada porque é a única que registra aquela prática e porque a divergência é real, e fica com essa ressalva porque ela pesa.
FONTES
- 1.John Romano, via fórum Bonsai Nut, Sumo style (o artigo de John Romano citando Mike Page), 2017
- 2.Eric Schrader, Bonsai Society of San Francisco, Understanding Proportion
- 3.Mike Page, Sumo satsuki azalea, 2011
- 4.Brent Walston, Evergreen Gardenworks, The Rules of Bonsai
- 5.盆栽屋.com (宮本孝行), blog 盆栽徒然草, 樹高の測り方 (como se mede a altura da árvore), 2019
- 6.blog Aido Bonsai (sem autoria pessoal assinada), Os tamanhos e as medidas do Bonsai, 2011
- 7.Bruno Gomes, Proporções no Bonsai e a equação áurea de Fibonacci, 2011
- 8.João Laudir Teixeira, A métrica do bonsai
- 9.Bonsai Empire, edição em japonês, 盆栽の定義 (o que é bonsai, edição japonesa)
- 10.Scott E, Bonsai Society of Portland, Geisha versus Sumo, 2014
Cinco fontes desta lista são brasileiras e só três são independentes: duas publicam o mesmo texto frase a frase e uma é tradução declarada de outra da lista. Regra repetida em muitos sites não é regra confirmada.