ENCICLOPÉDIA

Como a árvore funciona

Uma árvore vive de duas coisas: folha que faz comida com o sol, e raiz que respira. No vaso raso as duas ficam mais difíceis, e quase toda regra de bonsai vem daí.

A FOLHA FAZ A COMIDA DA ÁRVORE1

A folha usa a luz do sol para fazer açúcar, e é esse açúcar que paga tudo o que a árvore faz: brotar, engrossar, cicatrizar e florescer. Sem folha, a árvore não tem como se sustentar.

PARA IR MAIS FUNDO

Pelos poros da folha entram e saem gás carbônico, oxigênio e umidade. É ali dentro que a luz vira açúcar.

O que sobra vira amido e fica guardado, na folha e na raiz. Uma árvore em repouso não está parada: está vivendo do que guardou.

A raiz trabalha a partir de uns 5 °C. Na maior parte do Brasil o inverno não chega perto disso, então aqui a raiz quase nunca para por frio. Se parou, foi por outra coisa.

Cada galho paga as próprias contas. A folha de um galho, e o sol que esse galho recebe, decidem a energia que ele tem. Se for pouca, o galho morre. Não é a árvore que desiste dele: galho sombreado pelos de cima, ou que perdeu quase toda a folha numa limpeza exagerada, seca por falta de caixa, não por doença.

O contrário também vale: crescimento se multiplica. Mais folha faz mais energia, que faz mais folha, e o ritmo pode dobrar de um ano para o outro.

Por isso perder folha demais custa caro. Uma árvore muito desfolhada pode levar vários anos para voltar ao que era, não uma estação.

A RAIZ NÃO TRABALHA SOZINHA1,2

A raiz puxa água e mineral e manda para a folha. Em muitas árvores ela tem a ajuda de um fungo que vive grudado nela, e esse fungo precisa de ar.

PARA IR MAIS FUNDO

Esse fungo se chama micorriza. No pinheiro ele aparece como uma camada branca e felpuda em volta da raiz, e quem nunca viu costuma achar que é bolor e limpar. Não é bolor: é ajuda.

A troca é simples: o fungo recebe açúcar da planta e entrega água e mineral que ele busca no substrato. Na prática, ele funciona como uma extensão da raiz fina e alcança o que ela sozinha não alcançaria.

E ele precisa de oxigênio para viver. Guarde isso, porque explica a próxima parte.

Daí vem um cuidado que muita gente repete sem explicar: não se lava a raiz de um junípero. Lavar não tira só terra, desfaz a associação com o fungo, e a árvore perde de uma vez a metade invisível do que a alimenta.

O fungo aparece em muitas árvores, e o caso mais visto é o do pinheiro e o do junípero. Antes de aplicar isso à sua espécie, olhe a raiz dela.

NO VASO RASO, O DIFÍCIL É DEIXAR O AR ENTRAR1

Substrato encharcado não mata por excesso de água. Mata porque a água toma o lugar do ar, e sem ar a raiz e o fungo param de trabalhar.

PARA IR MAIS FUNDO

Toda a dificuldade do bonsai cabe numa frase: num vaso raso, é preciso segurar água e mineral e, ao mesmo tempo, deixar o ar circular, trocando o gás usado por ar novo.

A árvore com os pés na água morre de sede, e é por isso que falta de água e excesso de água se parecem tanto por fora.

Isso explica três cuidados de uma vez: peneirar o substrato para tirar o pó, pôr partícula mais graúda no fundo de vaso fundo e não esmagar a terra entre as raízes. Os três são sobre o ar.

E a árvore do vaso não tem reserva funda para buscar, como a do chão. Tudo o que ela tem cabe naquele volume, e por isso o adubo pesa mais aqui do que pesaria no quintal.

A RAIZ É O ESPELHO DOS GALHOS1

O que acontece embaixo aparece em cima. Raiz fina e bem dividida sustenta galho fino e bem dividido.

PARA IR MAIS FUNDO

E o contrário é o que mais se vê: árvore com duas raízes muito fortes girando em volta do vaso tem, em cima, dois galhos muito fortes. O desequilíbrio de baixo aparece em cima.

Daí a regra que vale no transplante, na poda e no nebari: organize a raiz para sustentar a ramificação que você quer, e não deixe nenhuma raiz dominar.

Nas árvores que perdem a folha, a ramificação fina é o que faz a árvore parecer velha. É o sinal de idade que o olho lê primeiro, antes do tronco.

CONHECER A ORIGEM AJUDA, COPIAR A DUREZA ATRAPALHA1

Saber onde a espécie vive na natureza diz de que luz ela gosta. Mas a árvore que aguenta sofrer não precisa sofrer no vaso.

PARA IR MAIS FUNDO

Árvore de montanha alta está acostumada a sol forte o dia todo. Árvore que nasce embaixo de outras trabalha melhor na luz filtrada. Trocar as duas de lugar faz as duas sofrerem.

O erro comum é levar isso longe demais. O junípero sobrevive em lugar duro, e daí vem a fama de planta sofrida. Mas ele também cresce em lugar fértil e agradável, e cresce melhor. Sofrimento não é técnica.

A maioria das árvores prefere ficar do lado de fora, com luz natural e ar fresco.

Isso vale para o jeito da espécie, não para o calendário dela: o que se aproveita é onde ela vive e por quê, não o mês em que se faz cada coisa.

FONTES

  1. 1.Peter Warren, Bonsai, 2014
  2. 2.Bonsai Borússia (Osório, RS), Juníperos

Esta página é a única da enciclopédia que quase não tem número, e é de propósito: ela explica por que as regras são o que são, e explicação boa sobrevive à mudança de espécie, de vaso e de clima.