ENCICLOPÉDIA
As estações, no Brasil
O calendário de bonsai que circula na internet é de outro hemisfério. E mesmo dentro do Brasil ele não se transfere: no Sul a árvore para por frio, no cerrado para por seca, e no litoral do Nordeste quase não para.
A PERGUNTA NÃO É QUE MÊS É. É POR QUE A ÁRVORE PAROU1,2
Todo calendário de bonsai que você encontra por aí responde à pergunta errada. Ele diz o que fazer em cada estação, como se estação fosse a mesma coisa em todo lugar. Não é, e no Brasil é menos ainda.
O que faz uma árvore parar de crescer não é o nome do mês. São três coisas diferentes, e cada região do país usa uma delas. No Sul, a árvore para por FRIO: em Porto Amazonas, no Paraná, o viveiro que mais produz bonsai no país mantém uma página só sobre geada, com vídeo de um dia de geada no próprio pátio. No Centro-Oeste, ela para por SECA: o inverno de Brasília não congela nada, mas passa três meses com o ar abaixo de trinta por cento e sem uma chuva. E no litoral do Nordeste ela quase não para, porque não há frio nem seca prolongada para mandar.
Como as três coisas acontecem mais ou menos nos mesmos meses, junho a agosto, dá para acreditar que o calendário é o mesmo. Ele não é. O que a árvore precisa quando para por frio é proteção; quando para por seca é água na medida; quando não para é comida o ano inteiro. Um bonsaísta do Nordeste escreveu isso com todas as letras, em 2012: não podemos usar o mesmo calendário de procedimentos que é feito no Japão, na Europa ou no Sul do Brasil.
É por isso que o calendário das fichas se divide por clima, e não por estado: quente seco, subtropical e quente úmido.
PRIMAVERA, DE SETEMBRO A NOVEMBRO1,2
É a estação em que quase tudo se transplanta, e essa é a maior concordância entre as regiões. O calendário da Associação Bonsai do Rio Grande do Sul lista mais de trinta espécies para transplantar na primavera, das clássicas japonesas à jabuticaba e à pitanga. O viveiro do Paraná diz a mesma coisa em outras palavras: a melhor época é o fim do inverno ou o começo da primavera.
A lógica é a mesma em qualquer clima, e é da planta, não do lugar: mexer na raiz logo antes de a árvore voltar a crescer dá a ela a temporada inteira para se refazer. Mexer depois é tirar dela o tempo que ela usaria para isso.
No cerrado a primavera tem uma sutileza que o Sul não tem. Setembro ainda é seco e já é quente, e a chuva só chega perto de outubro. Então há algumas semanas em que a árvore está acordando com calor forte e sem água do céu, o pior momento para esquecer a rega, e um momento em que a planta recém-transplantada precisa de sombra parcial em vez de sol pleno.
No Nordeste, a mesma primavera é estação SECA na maior parte da região, com chuva só de tardinha. O autor de lá avisa que a partir de meados dela já é preciso proteger todas as plantas do sol entre onze e três.
VERÃO, DE DEZEMBRO A FEVEREIRO1,2
Aqui está a única regra desta página em que duas regiões brasileiras que discordam de quase tudo dizem exatamente a mesma coisa: NO VERÃO NÃO SE TRANSPLANTA.
A associação gaúcha escreve, na linha do verão, "não devemos transplantar nenhuma espécie". O bonsaísta nordestino escreve, sobre a mesma estação, que não realiza nem indica trabalhos mais pesados como poda radical, transplante ou desfolha total. Um mora onde faz frio de verdade, o outro onde nunca faz. Concordam.
E concordam porque o motivo não é a temperatura, é a evaporação. Uma árvore com a raiz recém-cortada não consegue repor a água que a folha perde, e é no verão que ela perde mais. O vaso de bonsai é raso e pequeno, e seca rápido: o nordestino diz que os bonsai, em bandejas rasas, sofrem bastante se esquecidos ao sol.
Sobra o quê, então? Pinçamento, limpeza, aramação em algumas espécies, e rega. Verão é estação de manter, não de mexer.
OUTONO, DE MARÇO A MAIO, E AQUI AS REGIÕES SE SEPARAM DE VEZ2
No Sul o outono é o começo da desaceleração: a associação gaúcha praticamente esvazia a lista de outono, deixando quase nada para fazer, e manda tirar o arame em meados dela.
No leste do Nordeste é o contrário exato. É quando começa o período mais chuvoso, com mínimas em torno de vinte e dois graus e máximas entre trinta e trinta e dois. O autor de lá comemora por escrito: agora sim, este é o melhor período para meter a mão nos bonsai. E completa com uma referência que não vem de manual nenhum, não é à toa que o nordestino começa a plantar o milho para as festas juninas.
A mesma estação, com o mesmo nome, e uma diz "guarde as ferramentas" enquanto a outra diz "agora começa o trabalho". Não há calendário nacional que sobreviva a isso, e é por isso que o calendário de cada ficha diz para qual clima ele foi calibrado.
INVERNO, DE JUNHO A AGOSTO, TRÊS INVERNOS DIFERENTES1,2,3
No Sul o inverno é literal. Geada, dormência de verdade, e o trabalho que só se faz com a árvore parada: poda de galho grosso, limpeza da folhagem interna morta, e o transplante das coníferas ali no finalzinho. A associação gaúcha libera poda leve em todas as espécies no inverno, e poda radical em quase toda a lista.
No cerrado o inverno é seco e não é frio. As noites de Brasília chegam a doze graus e as tardes a vinte e oito, no mesmo dia. Não há dormência por frio: há desaceleração por falta de água, e uma amplitude térmica que resseca folha. O trabalho pesado cabe pelo mesmo motivo do Sul, a árvore está parada , mas a razão de ela estar parada é outra, e isso muda a rega. Quem cultiva no cerrado rega no inverno; quem cultiva no Sul reduz, e um cultivador de Osório explica por quê: umidade constante com a árvore parada favorece fungo.
No Nordeste, o inverno é a quadra chuvosa. Chove de abril a julho, e o autor de lá diz que continua sendo época de trabalho, com um cuidado que é o oposto do de Brasília: atenção ao excesso de umidade no substrato.
Três invernos, o mesmo trimestre, três instruções incompatíveis sobre a água.
E AÍ VEM O IPÊ, QUE DESMONTA O CALENDÁRIO INTEIRO4,5
Se a página parasse aqui, você sairia com a ideia de que a estação seca é o problema a contornar. O ipê existe para desmentir isso.
O ipê-amarelo floresce em agosto e setembro, no auge da estiagem do Brasil central, e floresce SEM UMA FOLHA. O ipê-roxo faz o mesmo de maio a agosto, tendo derrubado antes toda a folhagem. Aquela árvore inteiramente amarela ou roxa que para o trânsito em Brasília no fim do inverno é uma árvore que está, tecnicamente, no auge do período mais duro do ano.
E o gatilho da floração é justamente a falta de água. Quem cultiva ipê como bonsai reduz drasticamente a rega a partir do outono, deixa a folha cair inteira, e só volta a regar quando as gemas de flor aparecem. A seca não é o inimigo: é a ferramenta. A adubação segue a mesma lógica invertida, com dose pela metade, porque solo pobre estimula a florada e solo rico dá folha.
Colar o padrão tropical de setembro a maio num ipê seria mandar regar e adubar exatamente no período em que ele precisa de sede para florir. É o exemplo mais claro de que a estação não manda em nada sozinha: quem manda é o que a espécie faz naquela estação, naquele lugar.
O QUE ISSO SIGNIFICA PARA AS FICHAS1
Todo calendário diz, em cima da grade, para qual clima ele foi calibrado. O do clima quente seco foi feito sobre o cerrado e o Centro-Oeste, que é onde ela foi escrita. Parte das espécies tem também o calendário do clima subtropical, e nessas a ficha mostra as duas abas lado a lado, cada uma com a fonte dela.
Nenhum clima herda a grade do outro. Se uma espécie não tem calendário do subtropical, a aba dele não existe, em vez de mostrar o calendário do quente seco com outro rótulo, que seria dar a você o dado de um clima como se fosse do seu.
FONTES
- 1.Associação Bonsai do Rio Grande do Sul (Porto Alegre), Como cuidar do Bonsai durante o ano
- 2.Alexandre S. Coelho (publicado por Mac Donald Fernandes no ABC do Bonsai; lido no Internet Archive), Cultivando Bonsai no Clima do Nordeste, 2012
- 3.Bonsai do Campo (Porto Amazonas, PR), Manual de cuidados básicos
- 4.Biologia da Paisagem, Handroanthus chrysotrichus, ipê-amarelo, 2022
- 5.Bonsais.com.br, Bonsai de Ipê: como cuidar e fazer florescer, 2025
As duas fontes que sustentam esta página são brasileiras, assinadas e de lugares opostos do país, uma associação de Porto Alegre e um bonsaísta do Nordeste. Elas discordam, e a discordância é o assunto, não um problema a esconder. O texto do Nordeste saiu do ar e está citado pela cópia do Internet Archive: fonte que você não consegue abrir é fonte que não citamos de verdade.