ENCICLOPÉDIA · FABACEAE · MATA ATLÂNTICA E RESTINGA, BRASIL
Piteco
Pithecellobium tortum · Tamboril-de-espinho, Jacaré, Jurema, Rosqueira · 1 no Tokonoma do Nebari
VERBETE COM FONTE. 9 seções, 5 fontes citadas e calendário para o clima quente seco. O texto vem de literatura geral.
O QUE É1,3
Nativa brasileira de restinga e de Mata Atlântica, hoje classificada como Chloroleucon tortum, e provavelmente a espécie que mais parece bonsai sem ninguém ter feito nada. O tronco se retorce sozinho e vai ganhando um canelado fundo, com movimento que em outras espécies leva décadas de trabalho para aparecer. Bonsaísta que a coleta na beira do mar, onde ela cresce assolada pelo vento, encontra pronto o que em vaso se persegue.
A folha é composta de folíolos miúdos, de um centímetro mais ou menos, e faz uma coisa que dá gosto ver: fecha à noite e reabre no raiar do dia. A flor é branca e felpuda, parecida com algodão, e vem entre outubro e novembro. Espinhos nascem aos pares logo acima da folha e pedem respeito na hora de trabalhar.
É rústica de verdade. Brota de madeira velha, se recupera rápido de poda severa, e cresce em qualquer região do Brasil, preferindo o quente e o seco. O que ela não perdoa é uma coisa só, e está na seção seguinte.
CALENDÁRIO DE MANEJO
Calibrado para o clima quente seco, com chuva no verão e seca no inverno: a estação de crescimento vai de setembro a maio e o repouso é por seca, não por frio. Os meses foram feitos sobre o Centro-Oeste e o cerrado. No clima subtropical, onde o inverno é de verdade, as janelas mudam.
Destas janelas, 6 de 11 vêm do padrão desta casa para a região, e não de fonte sobre esta espécie.
Como se faz: transplante · poda · desfolha
LUZ, ÁGUA E SUBSTRATO1,3
Pleno sol, com alguma sombra nas horas mais quentes do verão. Rega abundante quando rega, e nunca deixar o torrão secar por completo.
O que mata piteco é substrato encharcado. A folha amarela, o crescimento trava, e a raiz apodrece sem alarde. As duas fontes brasileiras divergem na receita de substrato, uma pede metade de caco de telha ou pedrisco com terra preta e areia, outra pede areia grossa com caco de cerâmica e matéria orgânica, mas as duas dizem a mesma coisa no essencial: drenagem alta, e mais drenagem do que você acha necessário.
Na seca de junho a agosto ela desacelera, mas não entra em repouso de verdade como uma caducifólia. Continua bebendo.
ADUBAÇÃO2
Adubo líquido toda semana durante a estação de crescimento, e uma vez por mês no repouso, que aqui é a seca e não o frio. Orgânico funciona bem, alternado com adubo de liberação lenta.
Uma regra que é dela e vale decorar: suspenda o nitrogênio um mês antes de uma poda forte, e segure a rega até a brotação nova amadurecer. Árvore cheia de nitrogênio empurra broto mole que não sustenta o corte.
Nunca adubar planta doente nem recém-transplantada.
PODA2,3,4,5
Ela se recupera muito rápido de poda, mesmo severa, e brota de madeira velha, o que dá liberdade rara para reconstruir uma copa inteira.
Importante: A RAMIFICAÇÃO se constrói poda após poda, e devagar. Corta-se a vara que cresceu deixando poucas folhas junto do corte, para que dali saiam duas brotações. Nem todo corte bifurca: às vezes cresce um galho só, e a bifurcação vai aparecendo aos poucos, a cada final de estação, em cima do que a poda anterior ganhou.
Bonsaísta de Nepomuceno, no sul de Minas, faz essa poda no fim da primavera, deixando duas folhas, e de novo no começo do outono, deixando três. O piteco perde folha no outono e no inverno, e mesmo assim brota depois da poda de começo de outono.
Duas regras específicas, e as duas contrariam o hábito de quem vem de outras espécies: deixe um toco pequeno em vez de cortar rente, e não use cortador côncavo. Corte rente nesta espécie pode secar o galho inteiro para trás, e o toco é justamente o que se sacrifica no lugar do galho.
Desfolha: desfolha-se no verão para reduzir a folha e adensar a ramificação, e há registro apontando o início de janeiro. Feita na hora certa, ela rebrota inteira em pouco tempo.
Sobre aramação, esta ficha não afirma nada, e o silêncio é proposital: as fontes se contradizem. Uma diz que o galho é muito flexível e aguenta bem; duas outras desaconselham e preferem tirante e tensão por poda. Na dúvida, o conservador é não mandar ninguém aramar um piteco.
TRANSPLANTE E RAÍZES3
A cada dois ou três anos nas árvores mais velhas, e todo ano nos exemplares jovens, que ainda estão engrossando.
O trabalho é desembaraçar o torrão com gancho, reduzir o volume, cortar as raízes que se desenvolveram demais e podar cerca de um terço das que ficam. Substrato muito drenante na volta, e paciência com a rega nas semanas seguintes.
PROPAGAÇÃO1,2
Semente, estaca e alporquia, todas funcionam. Para enraizar estaca, usa-se areia com substrato vegetal, e há a observação de que areia de obra enraíza rápido.
Quem já tentou por semente conta que ela germina bem, e a semente é dura, do tipo que parece castanha.
PRAGAS E PROBLEMAS2,3
Aqui as fontes divergem, e vale saber das duas. Uma fonte brasileira afirma que a espécie não tem praga nem doença específica. Uma fonte internacional lista nematoides, pulgões, ácaros e mosca-branca, que são as pragas gerais de planta em vaso.
A leitura honesta é que ela não tem uma praga que seja a dela, como a azaleia tem o percevejo-de-renda, mas continua sujeita ao que ataca qualquer bonsai. O problema real do piteco não é bicho: é água demais.
ERROS COMUNS3
Regar por rotina de relógio em vez de conferir o substrato, e encharcar a raiz. É o único jeito confiável de matar um piteco.
Cortar rente com cortador côncavo, que é o gesto certo em quase toda outra espécie e o errado nesta. Adubar com nitrogênio às vésperas de uma poda forte. Aramar galho grosso confiando na fama de flexível. E cultivar dentro de casa, que é o começo de uma morte lenta.
NO SEU CLIMA1
O piteco é das espécies que menos sofrem no clima quente seco. Ela se desenvolve bem em qualquer região do país e prefere temperatura quente e seca.
O ajuste é o de sempre, e é a rega: o mesmo ar seco que ela tolera é o que esvazia um vaso raso em poucas horas entre junho e agosto, no Planalto Central. Sol ela quer, seca ela aguenta, torrão seco por completo não.
FONTES
- 1.Aido Bonsai, Pithecolobium tortum: uma espécie do Brasil
- 2.Bonsai Empire Brasil, Pithecellobium tortum (Piteco)
- 3.Tio Edu, Tae Kukiwon Bonsai, Como cuidar do Pithecellobium tortum
- 4.Diogo Snyguer, Bonsai Sul de Minas (Nepomuceno, MG), Pithecolobium Tortum: Evolução e Poda de Ramificação | Série Bonsai Desde a Semente · vídeo
- 5.Diogo Snyguer, Bonsai Sul de Minas (Nepomuceno, MG), O Segredo da Ramificação no Pithecellobium tortum | Série Bonsai desde a Semente · vídeo
