O QUE ELA COMPRA, E NÃO É UMA MUDA1
Alporquia é forçar um galho a emitir raiz sem tirá-lo da árvore, e só separá-lo depois que a raiz existe. O nome disso em livro é acodo aéreo, e o gesto é o mesmo em qualquer lugar.
Importante: E o que se compra com ela não é uma planta nova, que sai mais barato de semente ou de estaca. O que se compra é GROSSURA DE TRONCO de uma árvore muito mais velha, pronta, em pouco tempo. É a única técnica aqui descrita que encurta anos em vez de encurtar trabalho.
Escolhe-se qual parte do galho vai virar a base do futuro bonsai, e a escolha é livre: qualquer galho, em qualquer altura da planta. A forma dele deve servir ao estilo que se pretende, porque ela é o que se vai ter.
Serve também para outra coisa que ninguém associa ao nome: ENCURTAR um bonsai que cresceu alto demais. Em vez de cortar o alto e esperar, alporca-se na altura desejada e ganha-se uma árvore inteira com a base nova.
Importante: O PREÇO, E ELE É DIFERENTE DO PREÇO DE TODA OUTRA TÉCNICA1
Aqui está a frase que muda como esta página é escrita, e ela é do livro, não nossa: um galho preparado para alporquia fica IRREMEDIAVELMENTE DANIFICADO se a operação não der certo.
Compare com o resto. Poda errada rebrota, com o tempo. Arame esquecido marca, e a marca some ou se disfarça. Transplante malfeito enfraquece e a árvore se refaz. Na alporquia, o anelamento corta a comunicação entre a copa e a raiz daquele galho: se a raiz nova não vem, o galho não volta ao que era.
Por isso ela não se pratica no galho que importa. Pratica-se no galho que se pode perder, até a mão aprender.
OS DOIS MÉTODOS, E O QUE CADA UM FAZ1,4
A literatura nomeia dois, e eles atacam o mesmo problema por caminhos diferentes.
O MÉTODO DO ANEL: fazem-se dois cortes em volta do galho, de 2 a 3 centímetros um do outro, e retira-se a casca inteira entre eles, até a madeira dura, sem ferir a madeira. A seiva que desce pela casca para de descer ali.
O MÉTODO DO TORNIQUETE: enrola-se arame em volta do tronco ou do galho, apertando, para retardar o fluxo e forçar a formação de gemas acima do arame. É menos agressivo e por isso mais lento.
Os dois se combinam: uma das fontes desta página descreve o anel e acrescenta um arame de cobre inserido dentro do corte, justamente para retardar a circulação da seiva e fazer a árvore emitir raiz na tentativa de sobreviver.
O GESTO, E O QUE SE USA1
Uma faca de enxertia bem afiada, uma folha de plástico, barbante ou ráfia ou dois elásticos, e musgo.
Feito o anel, polvilha-se hormônio enraizante na parte exposta. Cobre-se com musgo úmido e forma-se uma manga de plástico em volta, amarrada nas duas pontas para o musgo não sair e não secar.
A raiz cresce para dentro do musgo, e costuma acabar aparecendo através do plástico sozinha, o que é o aviso de que ela existe.
E o ponto fraco do método no cerrado não é o corte, é o musgo: manter musgo úmido é fácil em estufa e é difícil em ar seco. A fonte diz, aliás, que a técnica é especialmente adequada a planta de interior e de estufa, justamente por isso.
QUANDO COMEÇAR E QUANDO SEPARAR, SEM DEPENDER DE MÊS1
São dois momentos diferentes, e os dois vêm descritos por ESTADO DA PLANTA, o que faz eles valerem aqui igual valem lá.
Começa-se no momento de crescimento mais ativo, QUANDO AS FOLHAS APARECEM. É quando a árvore tem pressa e responde.
Importante: E separa-se em outro estado, oposto: a separação e o plantio se fazem NO REPOUSO. Não se corta a alporquia na mesma fase em que ela foi feita.
O tempo entre um e outro é de UM A DOIS MESES em caducifólia, e de TRÊS A SEIS MESES em conífera, que é bem mais difícil de alporcar.
Nota: UM CASO BRASILEIRO, E ELE NÃO DEU CERTO2,3
Num viveiro do Paraná, uma macieira tinha um defeito visível na base: uma protuberância grande e feia, mais grossa que o tronco acima dela. A explicação é de enxertia e é mecânica: quando o porta-enxerto e o enxerto têm vigor diferente, o mais vigoroso engrossa mais depressa e a junção incha. No viveiro os dois têm apelido, e ele pega: o cavalo e o cavaleiro.
O conserto escolhido foi alporque TOTAL, em volta do tronco inteiro, acima do defeito. A ideia é ganhar uma árvore nova, com base limpa, e descartar a parte enxertada.
Importante: E aqui está o motivo de este caso valer mais que uma demonstração bem-sucedida. Na primeira tentativa NÃO SAIU RAIZ NENHUMA. Ele aumentou o corte, aumentou a profundidade e refez. Abriu de novo MAIS DE UM ANO DEPOIS, e encontrou POUCAS raízes, tão poucas que ele se pergunta em voz alta se algumas não seriam de mato crescido ali dentro.
Decidiu cortar assim mesmo, e o motivo é o do livro dito por outra boca: já não existia mais conexão entre as duas partes. O galho não tinha para onde voltar.
E repare no que isso faz com o prazo. O livro diz um a dois meses para caducifólia. A macieira é caducifólia e levou mais de um ano para dar pouca raiz. Não é contradição de fonte: é a diferença entre o prazo de uma operação que dá certo e o tempo real de uma que quase não deu. As duas informações ficam, e a segunda é a que prepara quem vai tentar.
DEPOIS DE SEPARAR1
Não se separa antes de a raiz estar bem desenvolvida, e o plástico costuma denunciar isso sozinho, com raiz aparecendo através dele.
Corta-se ABAIXO da incisão, com cuidado para não ferir a raiz nova.
Importante: A raiz nascida de alporquia é particularmente delicada, e ela sai enrolada, apertada em volta do tronco novo. NÃO SE DESENROLA. Plantada assim, ela se desenrola sozinha com o tempo.
É o oposto do que se faz num transplante comum, em que se abre o torrão e se espalha a raiz. Aqui, mexer é quebrar.
FONTES
- 1.Christian Pessey e Rémy Samson, Bonsai Basics: A Step-by-Step Guide to Growing, Training and General Care
- 2.Carlos Tramujas, Bonsai do Campo (Porto Amazonas, PR), Alporquia total em macieira, 2021 · vídeo
- 3.Carlos Tramujas, Bonsai do Campo (Porto Amazonas, PR), Atualização: alporque total em macieira, 2022 · vídeo
- 4.Yukio Hirose, The Ultimate Bonsai Handbook: The Complete Guide for Beginners, 2020
Quando duas fontes se contradizem, a divergência fica registrada: fingir consenso faria mais estrago que qualquer um dos dois lados.