ENCICLOPÉDIA · TÉCNICAS

Aramação

O gesto inteiro, com bitola, ângulo e ordem

O QUE A ARAMAÇÃO FAZ1,8

Aramar é dobrar um galho e mantê-lo dobrado até a madeira assumir a nova posição. É a técnica que permite o tronco torcido, o galho em cascata e boa parte do que distingue um bonsai de uma planta pequena num vaso.

O arame não força a árvore: ele segura enquanto ela decide. Por isso o prazo é longo. Fala-se em conservar o arame de oito a doze meses e repetir a operação todo ano até chegar à forma, e em conífera grande o prazo chega a doze ou dezoito meses, porque conífera demora bem mais para fixar a posição.

Importante: E os números publicados não são um só. Esta página traz oito a doze meses aqui, até TRÊS ANOS em conífera com cobre mais abaixo, e a página da Estilização repete os oito a doze. Não são fontes brigando: o que manda é a velocidade com que a árvore ENGROSSA. O arame sai quando precisa sair, e isso depende da espécie, da idade, da saúde e de quanto o galho foi dobrado. Árvore que engrossa rápido pede o arame fora em um mês; a que engrossa devagar aceita anos.

Atenção: Por isso nenhum desses números é prazo de calendário: são pontos de uma faixa. Quem cumpre o número e não olha a árvore descobre a marca no dia em que ia tirar o arame.

O junípero é a espécie clássica justamente porque aguenta aramação pesada, e é ela que aparece nas fotos de tronco retorcido com madeira morta esbranquiçada.

QUE ARAME, E DE QUE GROSSURA7,8,9,10,15,19,20

A regra de bitola é uma proporção, não uma tabela: o arame tem cerca de UM TERÇO da espessura do galho que vai dobrar. E como o alumínio é mais mole que o cobre, em alumínio se usa mais grosso.

Importante: QUANTO mais grosso é onde as fontes discordam, e a diferença é grande demais para ser ignorada. Uma diz apenas "um pouco maior". Outra dá o número: um arame de COBRE de 2 mm segura mais ou menos o mesmo que um de ALUMÍNIO de 4 mm. Ou seja, o DOBRO do diâmetro.

Atenção: Entre "um pouco maior" e "o dobro" há uma distância que decide se o galho fica onde você pôs. As duas ficam registradas, e a referência ao trocar de metal é o dobro, porque errar para mais custa um arame e errar para menos custa a dobra.

Quem está começando trabalha quase sempre com árvore jovem, e nessa faixa a grossura mais usada fica entre 1 e 2 milímetros. Conforme o galho vai afinando na direção da ponta, o arame afina junto: trocar de bitola no meio do caminho é parte da técnica, não improviso.

O comprimento se calcula antes de cortar: mede-se não o galho, mas o CAMINHO que o arame vai percorrer, contando o trecho de tronco ou de galho mais grosso onde ele se ancora, e acrescenta-se mais um terço. Medir só o galho corta curto por construção, e arame curto obriga a emendar no pior lugar, que é onde a dobra vai acontecer.

Importante: E há um motivo para cortar um pedaço antes, em vez de passar o rolo em volta da planta, que é o que se vê fazer: o cobre ENRIJECE de novo à medida que se mexe nele depois de recozido. Cada curva e cada volta em torno da árvore gastam a maciez que o recozimento deu, até chegar a hora em que ele não faz mais a curva. O pedaço cortado antes chega ao galho ainda mole.

Os dois tipos que se usam são o cobre RECOZIDO e o alumínio ANODIZADO. O cobre é mais duro de manejar e some mais na árvore, o que deixa o conjunto mais limpo de se ver, e ainda pode ser reaproveitado depois de recozido. O alumínio é mais macio, perdoa mais quem está aprendendo, e aparece. Arame galvanizado é o que se desaconselha em qualquer dos livros PARA ENROLAR GALHO: é elástico demais, difícil de manejar e machuca a casca.

Importante: E o galvanizado tem um uso em que ele é ESCOLHIDO, e não tolerado, o que contraria a condenação acima. Num viveiro do Paraná ele é usado de propósito para BAIXAR GALHO GROSSO por tração: um arame galvanizado fino tem resistência muito maior que o alumínio da mesma bitola e não se estica sob carga, e por isso faz tensão boa. O cobre serviria e é mais caro; o galvanizado resolve.

Atenção: Repare que não é a mesma função. Os livros condenam o galvanizado para ENROLAR galho, porque ele é duro de manejar e machuca. O uso que o campo brasileiro descreve é de TIRANTE, puxando de um ponto a outro, e ali a rigidez que atrapalha na volta é justamente o que serve.

Nota: E a escolha entre os dois não é só de gosto: ela é por TIPO DE ÁRVORE, e vem com o prazo junto. Em conífera, use cobre, e ali o arame pode ficar até TRÊS ANOS na árvore, que é o extremo lento da faixa descrita na primeira seção: conífera engrossa devagar. Em caducifólia quebradiça e em azaleia, use alumínio: a casca delas se machuca com facilidade, e o arame costuma precisar sair em poucos meses.

Importante: E há um mal-entendido dentro da palavra ANODIZADO que muda o que se pode substituir: a anodização é tratamento de COR, um pigmento que se põe sobre o alumínio, e não é o que deixa o arame mole. Por baixo dela o arame é prateado, cor de alumínio mesmo, e a maciez vem do RECOZIMENTO, que é outra coisa. O que se compra com a anodização é o arame SUMIR contra a casca, e não força de segurar.

Nota: Isso abre os substitutos que existem no mercado brasileiro, e são três: alumínio prateado vendido em LOJA DE MATERIAL DE CONSTRUÇÃO, dessas que trabalham com telas e redes e usam esse arame para costurar tela; e alumínio de BOBINA DE MOTOR ELÉTRICO, que em vez de anodizado vem com uma camada de ESMALTE, achado em loja de material elétrico. O cobre também aparece como arame de bobina de motor, e às vezes em ferro-velho.

Atenção: O do esmalte vem com a ressalva de quem o mostra, e ela é impressão dele, não medida: a sensação é que com o tempo, no sol, o arame VOLTA e muda um pouco de posição, e você perde parte da definição da forma. Por isso ele o indica para APRENDER e pegar prática, por ser fácil de achar e muito mais barato, e não para o trabalho em que a forma tem de ficar.

E o cobre é caro por um motivo que se sente na hora de comprar: ele é vendido por PESO e é mais denso que o alumínio, então o mesmo volume de arame custa mais do que a diferença de preço por quilo faz parecer.

Atenção: E escolher o arame não é a mesma pergunta que escolher SE se arama. Há espécies em que NÃO SE ARAMA, e elas estão listadas mais abaixo nesta página. Quem chegou aqui direto pela bitola pode estar comprando arame para um galho que não deveria receber nenhum.

Antes de escolher, dobre o galho de leve com a mão. A resistência que ele oferece diz mais sobre a grossura necessária do que qualquer medida tirada de longe.

POR ONDE SE COMEÇA, E EM QUE ORDEM7,8,9,17,18

A ordem é do grosso para o fino, sempre: primeiro o tronco, depois os galhos primários, depois os secundários, terminando nos raminhos do ápice. Aramar um galho fino antes de o galho que o sustenta estar preso é trabalhar duas vezes, porque ele vai se mexer quando o de baixo for dobrado.

Importante: O ponto mais importante do arame é a ÂNCORA: arame que não está preso em nada não segura nada. O do tronco começa a sua no substrato: a ponta entra CERCA de quatro a cinco centímetros na diagonal, ou até a mão sentir que travou. Isso se faz longe das raízes de superfície, porque furar o nebari para segurar um arame é trocar o que não se recupera pelo que se refaz.

Nos galhos, a âncora é o próprio tronco. Dois galhos se aramam com UM arame só, passando pelo trecho de tronco entre eles, e esse trecho é o que impede que dobrar um solte o outro. Os dois não podem estar nem longe demais nem colados um no outro.

Nota: E a âncora tem medida, o que transforma a palavra em gesto: quando um galho grosso é aramado sozinho, sem par, o arame começa MAIS ABAIXO no tronco, onde DUAS VOLTAS em volta dele funcionam como ponto de ancoragem. Nos pares de galhos primários, basta UMA volta de ancoragem no tronco. Depois de passar por uma junção, o arame segue de uma volta e meia a duas antes de servir de apoio ao próximo galho. Uma, uma e meia ou duas voltas não é briga de regra: é situação, e galho sozinho ou passagem de junção pedem mais.

Atenção: E a âncora ruim avisa antes de estragar: dobra-se um galho e o outro se mexe junto, como uma GANGORRA. É o sinal de que falta volta de ancoragem, e a hora de refazer é antes de dobrar. Além do substrato e do tronco, servem de âncora um arame mais grosso, um galho, um parafuso de latão na base ou o próprio arame que prende a planta ao vaso.

Dois galhos diretamente OPOSTOS, na mesma altura, não se pareiam: um atrapalha o movimento do outro. Pareia-se cada um com o galho seguinte.

Importante: E há um cuidado DEPOIS de aramar que não está em livro nenhum e que faz perder galho: a planta responde à aramação brotando NA BASE do galho aramado, e esse broto novo ANTECIPA a seiva que ia para o galho inteiro. Se ele ficar, o galho aramado SECA.

A regra é tirar todo broto que nascer no pé do galho aramado, e deixar só os que nascem para a frente, adiante da aramação. Isso é dito para BUGANVÍLIA, FICUS e CALIANDRA-ESPINHOSA, que são justamente espécies de crescimento rápido.

Para o galho principal usa-se arame grosso, e ele pode se ancorar tanto no tronco quanto num outro galho grosso perto. Nos secundários, o arame médio acompanha o primário por UMA VOLTA a uma volta e meia, no mesmo sentido de giro, e depois segue naturalmente para o galho. Nos terciários e nos secundários mais finos, arame fino, com um trecho de arame mais grosso entre eles servindo de âncora.

Atenção: E um limite prático que evita a bagunça: NÃO se deve ter mais de dois arames correndo lado a lado, embora às vezes não dê para evitar. Onde precisar de reforço no tronco, dobra-se o arame principal na parte de baixo, que é onde a força de dobra é maior.

Importante: O arame SEGUE O CAMINHO: o novo corre PARALELO ao que já está no lugar, no mesmo sentido de giro, e só depois sai para o galho dele. E os arames não se cruzam, e o motivo é a saúde da planta a longo prazo, não só a aparência: além de a aramação ficar feia, o cruzamento aperta mais o galho e arrisca sufocá-lo, interrompendo a passagem da seiva bruta e da elaborada. Cruzar uma vez não mata a planta; o estrago é o que se acumula com o tempo.

Atenção: O pior caso é cruzar MUDANDO O SENTIDO do giro: aí o arame vira TORNIQUETE, como um anel em volta do galho, e com o tempo forma uma bola, um calombo, naquele ponto.

Nota: E há cruzamentos permitidos na regra, porque têm função. Quando um arame termina e se emenda outro, a ponta do novo cruza por cima do anterior para dar tração. E um arame pode cruzar outro para ANCORÁ-LO, ou para proteger a forquilha, como está na seção seguinte. O que não se faz é cruzar por descuido.

Cada arame vai só até onde precisa: nenhuma ponta solta no meio da planta, e não se segue num raminho fino só porque sobrou arame. Na ponta do galho, a última volta termina por BAIXO, segurando a ponta levemente virada para cima. O que sobra se corta, e o fim do arame fica escondido contra o galho, nunca de frente para quem olha a árvore.

Enrola-se de frente para o galho, e não de lado nem por trás. Posicione-se diante do galho e traga o arame na sua direção: é assim que folha e broto não ficam prensados por baixo da volta. No galho grosso, de arame estrutural, há quem trabalhe de LADO, pela alavanca de empurrar e puxar; no fino, de frente.

Nota: E numa bifurcação há uma escolha que decide para onde o galho vai: passar o arame POR CIMA ou POR BAIXO do ponto em que os dois galhos se separam. Não existe lado certo fixo; existe o lado que deixa o arame girar no sentido em que você vai levar cada galho, para a frente, para trás ou para cima da planta. Repare que esta escolha é na FORQUILHA entre dois galhos; a da saída do galho no tronco, que depende de baixar ou levantar, está na seção seguinte.

Dois galhos saindo do mesmo tronco em alturas diferentes, com um único arame contínuo: ele começa na ponta de um, passa pelo trecho de tronco entre os dois e termina na ponta do outro (esquema)
Dois galhos saindo do mesmo tronco em alturas diferentes, com um único arame contínuo: ele começa na ponta de um, passa pelo trecho de tronco entre os dois e termina na ponta do outro (esquema)

Importante: POR FORA DA CURVA, E NO OMBRO DO GALHO8,22,23

Antes de encostar o arame, decida duas coisas: para onde o galho vai dobrar e onde exatamente fica a dobra. Tudo o que vem depois depende disso.

O arame trabalha como tala. Ele vai por FORA da curva, do lado que estica, porque é ali que a madeira rompe e é ali que ele segura. Por dentro da curva o arame não impede nada.

Importante: E não há um jeito só de entrar no galho: a entrada muda com o que se quer dele. O ponto de partida é o OMBRO, e o ombro é a própria JUNÇÃO do galho com o tronco, não um ponto afastado dela. Para BAIXAR o galho, o arame entra por CIMA do ombro; para LEVANTAR, entra por BAIXO. É essa escolha que guia como o arame assenta, e nos galhos baixados os arames passam, todos, por cima do ombro.

O motivo de não começar pela AXILA numa dobra para baixo é mecânico: se o arame parte da forquilha, por baixo da saída do galho, ele vira PIVÔ na hora de dobrar, e nada segura a parte de cima do galho, que pode rasgar do tronco ou quebrar. Começando pelo ombro, quando o galho tenta voltar à posição antiga, o arame está no caminho e o segura ali.

Atenção: E a forquilha sofre também por outro caminho: quando o arame estrutural, o mais grosso, segue para um galho menor, ele puxa esse galho PARA LONGE da forquilha, e ali é um ponto frágil. A saída é cruzar o arame por cima da forquilha, o que puxa os dois lados um contra o outro e a protege.

Trabalha-se do meio do arame para as pontas, e a primeira volta encosta no tronco sem folga, sem trecho reto e sem vão.

Importante: E a dobra em si tem um gesto de mão que evita a maioria das quebras: os POLEGARES vão por baixo do galho, apoiando exatamente o trecho onde o arame passa, e é contra eles que se força o galho para baixo. Firme, com força, e sem pressa. Com os polegares seguros embaixo, o galho não racha.

Um galho saindo do tronco e dobrando para baixo, em dois quadros: à esquerda, o arame começa no ombro, que é a própria junção do galho com o tronco; à direita, o arame começa na axila, com uma rachadura marcada exatamente ali (esquema)
Um galho saindo do tronco e dobrando para baixo, em dois quadros: à esquerda, o arame começa no ombro, que é a própria junção do galho com o tronco; à direita, o arame começa na axila, com uma rachadura marcada exatamente ali (esquema)

O ÂNGULO, O VÃO E A TENSÃO7,9,10

O arame sobe em espiral numa FAIXA de 45 a 60 graus, e não num número único. Os manuais clássicos ficam entre 45 e 55; as aulas de aramação estrutural alongam para 55 a 60.

Importante: E a diferença não é gosto: a volta de 60 graus fica mais ALONGADA, e por isso usa MENOS arame no mesmo trecho de galho. O limite é o vão: aberta demais, os pontos em que o arame apoia ficam longe um do outro e ele deixa de segurar; fechada demais, vira quase uma bandagem, gasta arame e não dobra melhor. Mesmo ângulo, mesmo vão e sem folga, do começo ao fim.

O vão entre as voltas é constante ao longo do galho, e fecha um pouco onde a dobra vai acontecer, que é onde se precisa de mais apoio.

Importante: E o arame tem SENTIDO, que é a outra metade do gesto: ele se enrola no mesmo sentido em que o galho vai ser levado. Enrolado no sentido horário, o galho se gira no sentido horário; no anti-horário, para o outro lado. Assim, na hora de dobrar, o arame APERTA.

Atenção: Enrolado ao contrário, o arame AFROUXA quando se posiciona o galho, e em vez de a fibra fechar junto com o arame ela abre, e o galho pode partir. Por isso, no galho primário, decide-se antes de começar para que lado ele vai girar. E o arame que começou num sentido segue no mesmo sentido até o fim.

A tensão é o ponto em que os livros param de dar número, e é honesto dizer isso: o arame não pode boiar com vão visível entre ele e a casca, nem apertar a ponto de morder. Apertado demais corta a casca; frouxo escorrega e não sustenta a dobra. Não há medida publicada, há calibragem de mão.

Uma mão segura e a outra enrola. A que segura fica parada, firme contra o tronco, até as duas pontas do arame estarem travadas; a que enrola guia a volta com o indicador. Quem tenta fazer as duas coisas com as duas mãos ao mesmo tempo puxa o galho junto.

Quando um arame não basta para uma dobra severa, entra um segundo. E onde ele fica depende da árvore: em CONÍFERA os dois vão encostados, lado a lado, subindo juntos; em árvore QUEBRADIÇA vão separados, o que fica mais feio e aumenta a área que segura. Nessas o arame sai cedo de qualquer forma. Dois lado a lado é o limite comum; há quem aceite até três no mesmo trecho, e mais que isso não.

TIRAR O ARAME: CORTAR OU DESENROLAR, SEM FORÇAR O GALHO10,16

Tanto faz cortar ou desenrolar: o que importa é não FORÇAR O GALHO nem arrastar casca. O arame já está encaixado na madeira que cresceu em volta dele, e desandar a espiral com pressa força o galho e pode quebrá-lo.

Cortar é o jeito mais seguro: um corte por volta, com alicate próprio, começando pelos galhos de cima e descendo. Cada pedacinho sai sozinho, sem puxar nada.

Importante: Desenrolar é o mais comum no Brasil, porque muita gente quer REAPROVEITAR o arame e não tem um cortador de arame bom. Dá para fazer, com cuidado: devagar, a partir da ponta, no sentido contrário ao que foi enrolado, segurando o galho. O risco é, numa ação para economizar arame, estragar o trabalho de muitos anos.

A âncora sai por último, com as duas pontas do arame seguras. E se o galho voltar para onde estava depois de solto, arama-se de novo, girando no sentido oposto ao da vez anterior.

Atenção: E não pode sobrar NADA por esquecimento. Uma voltinha de arame esquecida num galho vira estrangulamento mais adiante, quando o galho engrossar em cima dela. O caso em que se DECIDE deixar o arame é outro, e está três parágrafos abaixo.

O alicate próprio tem a ponta ARREDONDADA, e é isso que permite cortar mesmo onde o arame já está cravado na madeira, sem beliscar a casca. Na falta dele, um alicate comum resolve torcendo o arame em pedaços, o que é mais trabalhoso e mais arriscado.

Machucado leve na casca durante a retirada não é grave: a planta se recupera disso.

Importante: E existe o caso em que a resposta certa é NÃO TIRAR. Quando o arame ficou fundo demais na casca, retirá-lo corta a circulação da seiva em volta do galho inteiro, e o galho seca. Nessa situação deixa-se o arame, e a árvore o absorve. Não é desleixo: é a escolha menos ruim entre duas.

O arame sai quando a forma está feita. Se ele não estiver machucando, pode ficar; se a árvore vai ser podada, o arame sai antes da poda.

O DANO MAIS COMUM NÃO É QUEBRAR. É ESQUECER.3,4,9,13,14,15,21

O arame fica meses na árvore, e a árvore cresce por baixo dele. Quando o galho engrossa, o arame não cede: ele entra na casca, e a marca fica.

Importante: E aqui vai a parte que quase ninguém escreve, porque é desagradável: MARCA DE ARAME NÃO SE DESFAZ. Não existe técnica que a apague. As duas saídas são tirar o galho fora, ou esperar a árvore crescer por cima dela.

Vale a pena saber disso ANTES, e não depois: é o que transforma a conferência do arame de tarefa chata em decisão econômica. Cinco minutos olhando cada árvore custam menos que um galho.

Atenção: E existe o caso extremo, que é quando ninguém conferiu: a casca cicatriza EM CIMA do arame e depois sai inteira, em placa, quando alguém tenta tirá-lo. Aí não é marca, é ferida aberta num galho formado.

A saída intermediária, quando só uma parte apertou, é tirar o arame APENAS DOS PONTOS onde ele está marcando, deixando o resto trabalhando. Não é tudo ou nada.

Em espécie de crescimento rápido isso é questão de semanas. Na caliandra-espinhosa o arame entra na casca em poucas semanas, às vezes em um mês e meio.

Importante: E não é só a ESPÉCIE que encurta o prazo: o ESTADO também, e esse pega quem tem árvore que não é de crescimento rápido. Num BROTO NOVO EM CRESCIMENTO EXPLOSIVO, desses que saem depois de uma poda radical, o arame marca em cerca de VINTE DIAS. Quem tem um acer lê a frase acima, conclui que não é o caso dele, e ganha a marca.

Nota: O gesto que compra tempo é da outra página e é pequeno: DESPONTAR o broto antes de aramar tira força dele, e força a menos é marca mais tarde.

Casca fina pede proteção. A serissa marca com facilidade, e nela a ráfia funciona melhor que o arame nu, porque protege a casca e distribui a pressão. Para o bordo se usa arame revestido de papel pelo mesmo motivo.

Atenção: Mas proteção mal escolhida vira o problema. Um bonsaísta brasileiro conta o próprio erro: usou FITA em vários galhos achando que ela teria elasticidade suficiente para o galho engrossar sem dano, e diz por escrito que se equivocou. Em todos os pontos em que a fita ficou mais tempo do que devia, ele teve problema. Fita não é ráfia, e nenhuma das duas dispensa a conferência.

A regra prática que sai daí: aramou, marcou data. Conferir o arame não é opcional, é parte da técnica, e o prazo de conferência é mais curto do que o prazo de fixação da forma.

Atenção: E há uma armadilha de espécie: o PINHEIRO costuma dar um surto TARDIO de crescimento, quando quem cultiva já parou de esperar movimento. É nele que o arame aperta fora de hora, e é nele que a conferência tem de continuar depois de a temporada parecer encerrada.

Importante: QUANTO DE MARCA É DANO, E QUANTO É SINAL DE QUE FUNCIONOU8,11,12

Tudo o que está acima trata a marca do arame como estrago a evitar, e é assim que a literatura estrangeira a descreve. Existe outra leitura, e ela vem de quem cultiva aqui.

A primeira divergência é sobre o quanto de marca é aceitável, e ela é técnica: no campo brasileiro se repete que o ARAME PRECISA MARCAR UM POUCO para surtir efeito. Arame que não marcou nada não segurou nada, e o galho volta para onde estava. Marca leve não é acidente: é o sinal de que o arame trabalhou.

A segunda é sobre o prazo. Numa figueira, as marcas desaparecem, não hoje nem amanhã. Num taxódio, marca em galho não preocupa: em um ou dois anos ela some. A árvore cresce por cima, que é a mesma coisa que o livro diz, com outro ânimo.

Repare no que muda e no que não muda entre as duas leituras: o FATO é o mesmo, a marca fica e a árvore cresce por cima com o tempo. O que difere é o ÂNIMO. O livro descreve a marca como estrago de quem descuidou; o campo daqui a descreve como parte do processo, desde que leve.

Atenção: E três situações parecidas que não se confundem, porque não são a mesma coisa: a marca LEVE que se aceita como sinal de que o arame trabalhou, a marca de quem ESQUECEU e descobriu depois, e o caso em que já não se CONSEGUE tirar o arame porque a árvore cresceu por cima dele.

Atenção: E a espécie manda, sempre. As duas falas acima são de uma figueira e de um taxódio. Em caducifólia de casca fina não se estende nada disso: é justamente nelas que a literatura manda usar alumínio para não machucar, e que a casca marca com facilidade.

AS ESPÉCIES EM QUE ARAMAR É ERRADO5,6

Importante: A JADE não se arama. Os ramos são carnosos e pesados de água, e a tensão do arame arrebenta o galho. Nela, a forma se faz com poda, e só com poda.

Importante: A PORTULACÁRIA parece flexível e não é: a casca é sensível e o galho quebra fácil. Nela se usa vareta e tirante, que puxam sem apertar, em vez de arame grosso.

E em geral, suculenta é o grupo em que a intuição mais engana: o caule cheio de água dobra com aparência de maleável e rompe por dentro.

O MOMENTO, QUANDO QUEM DIZ É A ÁRVORE E NÃO O CALENDÁRIO7,9

Mês de livro estrangeiro não serve aqui, e é por isso que a seção seguinte existe. Mas parte das mesmas fontes descreve o momento de outro jeito, pelo ESTADO DA PLANTA, e estado de planta acontece em qualquer lugar do mundo, cada um no seu mês.

Para caducifólia, o momento aparece descrito duas vezes e as duas são estados: no começo da retomada, ANTES DE BROTAR, ou imediatamente ANTES DE A ÁRVORE ENTRAR EM REPOUSO. São as duas beiradas do repouso, e não o meio dele.

Importante: E o motivo de não ser o meio é o que mais surpreende quem imagina que árvore parada é árvore mansa: DURANTE O REPOUSO a maior parte das árvores fica muito QUEBRADIÇA. Dobrar uma árvore dormente é dobrar madeira sem elasticidade.

Para conífera, UMA das fontes põe o momento na estação em que ela está crescendo, e há outra que manda o contrário; a divergência está registrada no fim desta seção e não se resolve aqui. Com um limite, e ele vem com o mecanismo: no auge do calor não se faz dobra drástica, porque a casca, a casca interna, o câmbio e a madeira cheia de seiva podem SE SOLTAR uns dos outros, e isso enfraquece ou mata a planta.

Na estação de crescimento há ainda dois incômodos práticos que ninguém avisa: a folhagem atrapalha enxergar a forma que se está tentando dar, e a casca está mais solta, portanto mais fácil de machucar.

Importante: E há uma regra de dose que vale para o ANO inteiro: remodela-se a árvore que NÃO foi transplantada. Aramar estressa, transplantar estressa, e as duas coisas na mesma temporada é estresse demais. Não se faz muito de uma vez só.

Atenção: E aqui as fontes estrangeiras se contradizem entre si, o que é motivo para tratá-las como opinião e não como regra: uma manda aramar conífera nos meses FRIOS, porque ela demora mais a fixar a posição, e a outra manda aramar conífera na estação de CRESCIMENTO. As duas são de fora, as duas são respeitadas, e elas dizem o contrário uma da outra.

Há ainda um estado em que simplesmente não se dobra, e ele não é de estação: NÃO se dobra árvore em plena floração. Espera-se ela terminar de florir.

Nota: E há uma preparação que quase ninguém conhece e que muda o dia da operação: NÃO SE REGA a planta pouco antes de uma dobra grande. Segura-se a água por dois ou três dias, e a planta fica mais flexível. Pela mesma lógica, não se transplanta nem se afrouxa o torrão pouco antes de dobrar.

Em algumas caducifólias, como o bordo e o olmo, a dobra também se faz DEPOIS do corte de folha, com o galho já limpo e visível.

Importante: O MÊS: TRÊS POSIÇÕES QUE NÃO SE CONCILIAM1,2,9

Tudo acima é gesto, e gesto atravessa clima: bitola, ângulo, ordem e ancoragem valem igual no Japão, na Califórnia e no Planalto Central. Época não atravessa. UMA FICHA, e só uma, traz janela de aramação: o pinheiro-negro, marcada como informativa, nunca como cobrança.

São três posições incompatíveis. Um cultivador de Osório, no Rio Grande do Sul, arama no início da primavera e retira em meados do outono, ou seja, mantém o arame durante o CALOR. O maior viveiro de bonsai do país, em Porto Amazonas no Paraná, dá o oposto num manual geral: de maio a setembro, que no Sul é o FRIO, com a lógica clássica de aramar a caducifólia sem folha.

E a literatura estrangeira acrescenta uma terceira, que contraria as duas: aramar a caducifólia no início do verão, com a FOLHA JÁ MADURA, tirando o arame no outono, e deixar a conífera para os meses frios porque ela demora mais a fixar. Sob esse critério não é a ausência de folha que manda, é a maturidade dela.

Atenção: E há o agravante que impede a saída fácil de copiar o Sul: no Sul, maio a setembro é inverno com geada; no cerrado, o mesmo intervalo é a SECA. E aramar uma tropical em estresse hídrico é outra coisa.

Do mesmo lugar vem um cuidado de depois: proteger a árvore recém-aramada de sol forte e chuva pesada por cerca de um mês. E no cerrado sol forte e chuva pesada não caem na mesma época do ano que lá.

FONTES

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  2. 2.Bonsai do Campo (Porto Amazonas, PR), Manual de cuidados básicos
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  7. 7.John Yoshio Naka, Bonsai Institute of California, Bonsai Techniques I
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  18. 18.Bonsai NE Brasil, Cuidados básicos após a aramação, 2021 · vídeo
  19. 19.Renato Bocabello, Studio Bocabello (São Paulo, SP), Curso Básico - Studio Bocabello - Arames, 2023 · vídeo
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Quando duas fontes se contradizem, a divergência fica registrada: fingir consenso faria mais estrago que qualquer um dos dois lados.